Amarelo é a cor do sol
Seja você a se abraçar em dias de chuva. Hoje posso dizer com total convicção que me afastar de todas as pessoas tóxicas me trouxeram um alivio, mas não mais confortante quanto no momento em que enfim eu decidi me abraçar por completo. Somos responsáveis pelas nossas frustrações e alegrias. É aquele velho ditado, o plantio é livre mas a colheita obrigatória. Somos a soma de todas as nossas ações. Hoje me sinto tão livre e dona de tudo que há em mim que tenho certeza que não seria possível se eu não tivesse me conhecido e me abraçado a tempo.
O mês é amarelo e nada mais justo do que falar sobre algo que infelizmente tem se tornado algo mais frequente na nossa sociedade. Posso dizer que amadureci mais nesses últimos meses do que durante todos meus outros anos. Mas não foi uma jornada fácil.
Algumas vezes passamos por coisas que deixam marcas, profundas e cortantes marcas. Que nos mudam por completo. Principalmente pessoas e relacionamentos acabam por fazer isso. Meu relacionamento passou longe de ser algo saudável e construtivo. Embora na minha cabeça eu tentava algumas vezes forçar para que fosse, eu sabia que não era. O nosso medo de que ninguém no mundo vai sentir o que aquela pessoa diz sentir por nós. Medo da solidão. Medo das nossas fraquezas das quais muitas vezes acaba sendo utilizada contra nós mesmos. Nos agarramos ao medo e seguimos como se nada tivesse acontecido. Mas acontece. E nesse percurso nos agarramos ao medo e acabamos por nos perder no caminho.
Eu passei alguns meses sem me encontrar. Sem saber onde eu havia me perdido. Não haviam forças. Não havia mais nada. Apenas um vazio constante. Eu mal tinha vontade de sair da cama. Choros constantes. Noites mal dormidas seguidas de agonia. Ficar sozinha era ter de me ouvir gritando por socorro, era ouvir um mundo acelerado seguido de angustia. Passei a me ocupar e aproveitar todo segundo do meu dia. Sentia como se o mundo estivesse pesando nos meus braços. O que vou falar aqui não é algo do qual me orgulho, mas acho um momento muito oportuno para compartilhar isso.
Todos nós possuímos gatilhos dentro de nós que uma hora ou outra é acionado. O meu foi o término do qual teve outros motivos juntos como a descoberta enfim de que um relacionamento abusivo está longe de ser considerado um relacionamento amoroso. Esse gatilho quase me levou a um suicídio. Foram semanas de puro terror dentro de mim. O pânico havia se instaurado. Assim como todos pensei dar conta. Não dei. Infelizmente me dei conta disso depois de várias crises de pânico.
Hoje agradeço as crises, porque talvez se não fossem elas eu não estaria aqui para contar essa história. Antes que você pergunte, mas tudo isso por conta de um cara? Eu respondo assim como disse a minha psicóloga. O gatilho do qual me referi, me alertou que tudo que eu havia feito comigo estava totalmente errado, eu havia me permitido chegar onde eu estava. Auto culpa. Me culpei pelos erros dele. E toda vez que eu olhava no espelho tudo que eu via era uma criança ferida e muito magoada por tudo que havia acontecido. Porque o eu de 10 anos jamais permitiria que aquilo acontecesse com alguém. Tudo dentro de mim estava gritando. Quando então vi um carro parecido com o dele e o meu medo só aumentou. Todas as lembranças aterrorizantes do que passei com ele vieram me assombrar. Era um dia nublado e no meu trabalho eu chorei feito criança pequena. E sentia uma pedra gigante prendendo meu peito. Sentia que aquilo deveria acabar ali mesmo. Eu sentia que tinha que dar um fim a tudo aquilo que estava me matando, matando a mim mesma.
Pensamentos e pensamentos vieram a minha cabeça. Formas e formas de acabar com tudo aquilo. O que eu mais pensava era: será que há uma forma de acabar com essa dor, sem ter de sentir mais dor ainda na partida? Me jogar em frente a um caminhão a alta velocidade traria mais uma pessoa ferida a realidade. O motorista. Não queria ferir mais ninguém. Me jogar do sexto andar seria suficiente? Pensei comigo, eu poderia me matar assim como apenas poderia ficar em uma cama por sabe-se quanto tempo, trazendo mais sofrimento ainda as pessoas que me amam. Cortar os pulsos, ainda haveria dor. Facada se não fosse certeira traria mais dor ainda. Então pensei em tomar todos os remédios que encontrasse. Seria algo indolor. Quando estava prestes a fazer, senti meu corpo todo ficar bloqueado. Havia perdido todos os meus comandos. Sentimento horrível, não poder mandar no seu corpo. Estava lá imóvel e ainda mais apavorada. O que eu estava fazendo comigo mesma? Quem era aquela garota frágil e sensível? Quem eu havia me tornado? Eu procurei por ajuda na manhã seguinte e graças a minha psicóloga cá estou para contar isso. Enfim me dei conta de que ninguém é tão forte que não precise de ajuda. Na verdade todos deveríamos ter um terapeuta. Eu me recuperei. Ainda há muita coisa para melhorar e aprender. Mas já não sou a mesma. Sim tem dias que as coisas pesam mais mas graças a Deus nunca mais me faltou forças.
Esse desabafo está longe de ser um incentivo. Mas acredito que quando descobrimos que alguém já passou por isso é que encontramos mais forças ainda. Se você conhece alguém que passou por algo assim ou está vivendo algo assim, estenda sua mão. Qualquer "estou contigo" é um motivo para seguirmos batalhando contra isso. Digo por conta própria, de quem já esteve na pele de um suicida. Aquele sentimento na época me matava, mas hoje percebo que se tivesse feito algo terrível. Eu teria matado de alguma forma todos que realmente se importavam comigo. E eu teria sido egoísta em exterminar a minha dor e deixar tantas outras pessoas com a dor de uma perda. E tirar a minha vida não seria a saída.
O que mais quero dizer a você que está passando por isso é que somos mais fortes juntos sim. Mas que muito dessa força acaba vindo de nós mesmos. E não há demonstração maior de força quanto a de admitir suas dores e ir atrás de ajuda. Ninguém é tão bom ou tão forte que não precise de ajuda. Nesse mês de prevenção ao suicídio gostaria de dizer que você não está sozinho e que se precisar de algo eu estou aqui. E que há o CVV também que pode lhe ajudar, basta ligar no 188.
Eu passei por isso e hoje sou alguém que o eu antigo jamais reconheceria. E assim como eu, você também vai sair dessa. E se você que está lendo se identificou com algo quero dizer que te conheço melhor do que imaginas e logo sei da força que existe em você. E que esses bracinhos aqui estarão abertos se quiseres conversar sobre algo. E confesso que conversar com alguém sobre isso ajuda muito. Não falar sobre é o problema. Lembra que a tempestade existe mas o sol vem no dia seguinte. E amarelo é a cor do sol. Você não está sozinho nessa e tem uma importância gigante nesse mundo.

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